Tech - BBS

Ultimamente tenho andado um pouco nostálgico.

“É a velhice”, dirão os leitores mais apurados. Pode ser, mas o fato é que a causa não importa. O que importa é que a nostalgia tem me levado frequentemente a pensar nos tempos em que eu comecei a usar computadores.

Por exemplo: este ano comemora-se as duas décadas de Internet no Brasil. Por acaso, equivocadamente, já que o Brasil conectou-se à Internet pelo menos há 24 anos através de suas instituições acadêmicas e científicas, o que na verdade deveria se comemorar este ano é a democratização e popularização da Internet, pois em 1995 o Alternex, primeiro provedor da Internet no Brasil, passou a oferecer acesso ao cidadão comum. E eu escrevi sobre isto em outro momento.

Pois bem, nas pesquisas que andei fazendo para abordar o assunto afloraram coisas das quais eu pouco me lembrava, como conexão à Internet via linha telefônica comum, uma tecnologia que exigia que o sinal digital fosse convertido em um sinal analógico correspondente a uma onda sonora (ou seja, “modulado”) no computador de origem, sinal analógico este que era transmitido pelo fio telefônico e, ao chegar ao computador de destino, era reconvertido em sinal digital (ou “demodulado”). Um procedimento que, por razões técnicas ligadas à transmissão de sinais analógicos alcançava uma taxa máxima de transmissão de 56 Kbps (quilobits por segundo). E isso depois de uma longa evolução, já que os primeiros modems (os dispositivos que modulavam e demodulavam os sinais e por isto receberam este nome) transmitiam em taxas de 50 bps (isso mesmo, cinquenta bits por segundo).

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Mas, estes, nem eu alcancei. Quando comecei a usar modems os modelos comuns eram de 1.200 e, logo depois, 2.400 bps (bits por segundo). Eu ainda devo ter em meus guardados um modem de 2.400 bps, literalmente uma peça de museu.

Perceba que estamos discutindo taxas medidas em bits por segundo. Da próxima vez que você se impacientar quando seu telefone celular 4G, que alcança taxas da ordem de dezenas de Mb/s (Megabits por segundo), demorar a baixar uma página da rede, pense nos idos da década de oitenta do século passado quando os modems mais modernos eram um milhão de vezes mais lentos e seja piedosamente paciente. E olhe que isso aconteceu há pouco mais de trinta anos.

Mas, um momento: se somente há Internet no Brasil há 24 anos, para que eu usava meu modem de 2.400 bps no final dos anos oitenta?

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Ora, é que a comunicação através de troca de dados digitalizados entre computadores não era feita apenas via Internet. Muito pelo contrário: a Internet foi uma consequência da viabilidade desta comunicação, que ensejou a formação de uma rede mundial de computadores. Ou seja: somente foi possível conceber a Internet porque existia a possibilidade de intercâmbio de dados entre computadores, inclusive através da rede telefônica.

Mas que dados eram trocados? Para que esta comunicação era usada?

Ora, para um monte de coisas. Por exemplo: empresas trocavam arquivos e mensagens entre seus computadores situados em outras sedes, eventualmente até em outros países. Podiam enviar e receber softwares e dados ou trocar mensagens.

Mas, para nós, simples mortais, pessoas físicas, o bom mesmo eram os BBS. Era para isso que eu usava meu modem.

Nunca ouviu falar? Eu explico.

BBS são as iniciais de “bulletin board system” que, em português, significa “sistema de quadro de avisos”. Mas, curiosamente, o nome pouco tem a ver com o que de fato era um BBS. Na verdade, para ser franco, eu fui um insistente usuário de BBS durante anos a fio e jamais engoli este nome. Quadro de avisos? Francamente…

Vamos tentar descrever como a coisa funcionava.

Começava assim: um sujeito, geralmente um indivíduo membro de um grande grupo de amigos, todos usuários de computadores, comprava um computador, alguns modems e umas tantas linhas telefônicas e instalava no computador o software para gerir o BBS. Isso, na década de 1980, correspondia a um respeitável investimento. Estava em plena vigênci

... a a reserva de mercado de informática (não sabe o que é isso? Sorte sua; de qualquer forma, não dá para explicar aqui) e um computador de mesa com poder de processamento para suportar a demanda de um BBS custava “uma nota preta”, como se dizia na época. Os modems, por sua vez, não eram baratos. E, o que talvez surpreenda os mais jovens, o maior investimento era nas linhas telefônicas: antes da privatização o serviço telefônico era prestado por órgãos governamentais e simplesmente não havia linhas disponíveis para satisfazer a demanda. É claro que você podia se inscrever, ou seja, entrar na fila, mas demoraria anos para receber sua linha, e isso se recebesse. Linhas telefônicas passaram a ter tal valor que eram considerados bens que deveriam ser declarados no imposto de renda, entravam em inventários e eram comercializadas em um mercado paralelo. Em 1985 eu comprei uma pelo equivalente a três mil dólares americanos.

Em suma: para montar um BBS gastava-se o equivalente ao preço de um carro popular.

Isto posto, o “dono” do BBS, ou “Operador do Sistema” (conhecidos pela abreviação em inglês “SysOp”), cadastrava seus amigos como membros do BBS e lhes fornecia acesso através de uma senha e identidade de usuário. Além, é claro, dos números de telefone correspondentes às linhas ligadas ao micro – que abrigava o software necessário para gerenciar aquilo tudo.

Os membros, por sua vez, podiam discar o número do BBS através de seus próprios modems, que se comunicavam com os modems do BBS para estabelecer uma conexão.

Feito isto, podiam fazer um monte de coisas:

- transmitir (“subir”) arquivos de programa que ficavam armazenados nos discos rígidos do BBS de onde podiam ser “baixados” pelos demais – naturalmente, todos de domínio público, jamais programas comerciais, o que seria pirataria, e se algum desses fosse encontrado em um BBS naturalmente se tratava de um engano de quem enviou (pequenas mentiras são perdoáveis, verdade?);

- “conversar” (por texto, usando teclado, tipo “chat”) com os demais membros;

- trocar mensagens que ficavam armazenadas em suas caixas postais até serem lidas pelos destinatários – as chamadas mensagens privadas; 

- enviar mensagens que ficavam à disposição de todos – aparentemente daí derivou o nome de “sistema de quadro de avisos” – que por sua vez podiam tecer comentários sobre elas. Eram as mensagens públicas.

As conversas em tempo real com outro membro seriam, de longe, o equivalente a serviços de trocas de mensagens como o WhatsApp. As mensagens privadas corresponderiam mais ou menos ao correio eletrônico de hoje, porém apenas podiam ser trocadas entre membros. Mas o forte mesmo dos BBS eram os bancos de programas (olhem lá: todos de domínio público – que os céus me perdoem pela pequena inverdade) e, sobretudo, as mensagens públicas, o equivalente às redes sociais de hoje em dia, porém com limitações (entre outras: apenas os membros do BBS podiam participar, membros considerados inconvenientes pelo “sysop”  podiam ser sumariamente banidos – afinal, o BBS era dele – e as mensagens eram todas texto puro).

 A tendência, naturalmente, era que o número de membros crescesse. Isso porque entravam os amigos dos amigos, que por sua vez também tinham amigos, e assim sucessivamente. Os bons BBS tinham milhares de membros, cuja maioria não se conhecia. Por isso, de tempos em tempos, organizavam-se “encontros” aos quais compareciam um grande número de membros. Os encontros do Leme eram tradicionais (particularmente porque recebiam membros de diferentes BBS), mas havia outros, como os do clube Marimbás e do Siri de Vila Isabel. Nesses encontros fiz alguns de meus melhores amigos cuja amizade cultivo até hoje, como o Alexandre Souza, C@T, Júlio Botelho e muitos outros.

Enfim: os BBS eram uma forma interessantíssima de fazer amigos e cultivar amizades com pessoas de carne e osso que se reuniam regularmente, marcavam almoços, enfim, eram gente, não vultos virtuais dos quais na maioria das vezes só se conhece o retrato que nem mesmo se tem certeza que de fato representa o indivíduo (me refiro, é claro, às modernas redes sociais).

Dava para escrever um livro sobre o assunto (e de fato, já foram escritos vários, inclusive o “Guia do BBS”, do Sérgio Gallo, que recomendo) mas a coluna ficaria demasiadamente longa. Mas não dá para encerrar sem mencionar as memoráveis discussões travadas nas mensagens públicas, as dificuldades de se conseguir uma conexão (lembre-se que eram dezenas ou centenas de modems ligando para os mesmos números de telefone; não era fácil encontrar uma linha livre), o desespero que se sentia quando, quase ao final de um “pacote” de mensagens, a linha “caía” porque alguém ligou para você que esquecera de desabilitar o sinal de aviso, enfim, nas aventuras e desventuras de ser um membro de BBS.

E quanto custava?

Nada.

Nadinha.

Não entendeu?

Eu explico – se é que isso explica alguma coisa:  um sujeito (eu poderia citar aqui vários, mas não o faço por medo de minha memória traiçoeira me fazer cometer a injustiça de esquecer algum, quase todos meus amigos) investia uma baba em equipamento e linhas telefônicas, sem falar no tempo exigido para administrar a tralha toda e funcionar como moderador do fórum de mensagens, punha tudo isto à disposição dos amigos, dos amigos dos amigos e assim por diante, muitos deles que sequer conhecia, sem cobrar-lhes sequer um único tostão somente pelo prazer de pôr pessoas em contato umas com as outras e ajudar a cultivar amizades.

Como se vê, há trinta ou quarenta anos as coisas eram muito diferentes.

Não disse que ando nostálgico ultimamente?

B. Piropo



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